quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Poema de David Mourão-Ferreira


Há uns anos atrás, uma amiga minha (alguem que conheceu o meu lado sensivel), ofereceu-me um livro de poesias "Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade".

Hoje ao folhear as suas paginas deparei-me com um poema que realça em parte algo que já fui no passado e que no passado me fez penar com dor:


"A tua morte, que me importa,

se o meu desejo não morreu?

Sonho contigo, virgem morta,

e assim consigo (mas que importa?)

possuir em sonho quem morreu.


Sonho contigo em sobressalto,

não vás fugir-me, como outrora.

E em cada encontro a que não falto

inda me turbo e sobressalto

à tua minima demora.


Onde estiveste? Onde? Com quem?

- Acordo, lívido, em furor.

Súbito, sei: com mais ninguem,

ó meu amor!, com mais ninguem

repartirás o teu amor.

E se adormeço novamente

vou, tão feliz!, sem azedume

- agradecer-te, suavemente,

a tua morte que consente

tranquilidade ao meu ciúme."

("Elegia ao Ciume" - David Mourão-Ferreira)

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