Acordei…não tinha relógio e a televisão nem ligava…
Olhei a janela, e escuro como breu tudo estava…Vi as luzes dos carros e os relâmpagos que iluminavam algo que perseguia…
É tempo de vaguear…arranjei-me como nunca o faço…vesti o meu fato preto e a minha camisa preta...gel no cabelo, o meu sobretudo escuro...os meus oculos escuros para mais negro o mundo me parecer...
Saí de casa... Minha mãe em lagrimas ficou por ver o que levei comigo, meu pai apenas baixou a cabeça, a sua tristeza destroçava-me o coração, talvez por isso pus os oculos para não se ver o deserto de indiferença que é o meu olhar...
Está frio... Tenho os carochos à minha porta a destruirem-se, vejo em rostos aquilo que já eu fui... Ouço uma voz "Comé que é!Estas de volta?", vejo logo uma enrolada, e ao lado uns riscos de branca... NÃO! Não estou de volta...apesar de negro continuar, e a loucura me possuir, existem esqueletos que consegui destruir...
Começo a andar...carros de um lado, lixo do outro, gritos e tiros...chuva...
Parece que sempre que caminho sou perseguido...
Apanho o autocarro... Pobres almas que vão trabalhar... Sento-me no ultimo banco, ao meu lado um carocho se senta e pede-me trocos viro-me "Sócio, baza!", ele ao ver as minhas mãos a tremer afasta-se...
Volto à rua... Não sei quanto tempo passou mas a noite mantem-se...
Subo a rua... Ouço novas vozes "Querido queres ir comigo? Sou muito carinhosa...são só 20€"... Old school, parece que voltei à podridão humana, julguei que já tivesse passado este purgatorio... pelos vistos não sei...
Hummm... tenho sede... um bar underground me chama... sento-me e peço o meu Johnnie Walker com duas pedras... no palco, uma moldava exibe as suas mamas... uau, acho que afinal estou num talho, pois aquilo é so um bocado de carne... mas, bem, cartão de credito para cima da mesa, cortina fechada... 3min de musica e whatever...
Saio... hum alguma luz ja começa a brilhar... acho que o pouco de bom que existe em mim começa a tentar impor-se...
Olho o telemovel... quem me arrancava da escuridão ja partiu e as lagrimas que larguei ja secaram completamente... restam as marcas que fiz no meu corpo por uma estupida ignorancia... o objecto que usei continua no bolso...
Sinto algo a vibrar... o telemovel a tocar..que se passa?
"ola meu poeta, nunca mais disseste nada...onde andas, tenho saudades!" desliguei...
"Como é que é miudo???vamos para o casino esta noite?" desliguei...
"Ola, como estás? Que cenas são estás que andas a escrever?Parece que estás a vacilar outra vez..." desliguei...
Desliguei, mas é verdade... ignoro todos a minha volta, e procuro onde não existe... É como procurar uma pessoa no meio de Nova Iorque tendo so como referencia o seu rosto...
Finalmente está a nascer o sol... e o alcool ja escorre nas minha veias... sento-me no chão e fecho os olhos... vamos ver se isto foi um sonho ou se andei mesmo a divagar...
É noite outra vez...tiro camisola e olho-me ao espelho... mais marcas, mais tatuagens, mais historias...o mesmo final...
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
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2 comentários:
Por cada lágrima que desliza pela pele de um rosto perdido, por cada olhar de tristeza, por cada desalento, existe sempre alguém que por ti cai uma lágrima, que fica triste e que se preocupa.
Pena, não.
Comiseração, não.
Apenas saber que, não se faz um percurso sem cair,
Que não se evolui, modifica e renasce sem dor,
Que ao seguir um caminho fica sempre a dúvida, será que o outro?
Nada, nenhum paço, nenhuma decisão é seguida rectamente, sem desvios, recaídas quedas e retrocessos. Provocam insegurança, ansiedade e dor, mas fazem parte de um processo maior que já foi começado e reconhecido.
Quando se reconhece que já não se pertence a determinados lugares, que já nos incomodam actos e situações, que apesar de continuarmos a fazer, a insistir. O reconhecimento de que já não somos nós, que estamos a visualizar um filme pelo qual e erradamente passamos. O reconhecimento é a pedra motriz de todas as mudanças, de todas as evoluções de todos os renascimentos. Como Fénix renascida das cinzas, temos que “queimar” nossos fantasmas, nossas inseguranças, nossas falsas verdades.
Prontos para abrir os olhos, a alma e o coração. Ver e sentir que há quem se pudesse sofria por nós, chorava por nós, apenas por que os sentimentos que nutrem por nós são de vontade de protecção, de partilha e de dádiva.
O processo, só nós e mais ninguém o poderá fazer, só nós sem “bengalas”, sem apoios, sem falsos pressupostos, mas nunca esquecendo que no horizonte existirá sempre um olhar para afagar a alma, uma mão para agarrar, uma palavra para aconselhar.
Negritude de alma todos têm, em algum ponto mais recôndito, depois há os que reconhecem e tentam ser melhores, há os que se esquecem e nunca conseguiram fazer a evolução.
Eu não gosto de ser como a folha caduca: forte no vigor dos dias longos e quentes onde a vida renasce em doces ilusões, para depois sucumbir às dores do frio e da solidão que se instala até ao próximo renascimento.
A folha perene não é tão feliz, mas resiste a todas as adversidades da sua existência, e aproveita de forma singular todos os pequenos momentos que a natureza, como boa mãe que é, lhe dá como sopros de uma vida intermitente.
Mas também sei que ser eterno é muito tempo... E como razão de uma inquieta liberdade que nos atormenta a tristeza, há sempre alguém que um dia nos faz pensar e nos faz mudar. É uma pequena chama que nos desperta o desejo, e quando damos por nós já estamos perdidos num imenso fogo vermelho por onde arde todo o passado, por onde se consome toda a paixão da vida, e por onde se renova toda a esperança.
E é bom renascer das cinzas desse desespero, pois voltamos mais fortes por entre os destroços da existência que se consumiu à nossa volta.
Porém, deve existir a coragem de nunca deixarmos de ser perenes e de nos identificarmos com o que de melhor há em nós, sob pena desse fogo libertador nos conduzir à ausência das palavras nos lábios de alguém que depois diz:
"-Não te conheço!..."
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